| Mundo Cão
RCC
18/05/2006
Infâncias cercadas de violência, bebida, sujeira, desconforto. Bem cedo iniciaram em pequenos furtos e a necessidade da droga para vencer o frio e a fome. Encontraram-se no abrigo de menores, reconheceram-se e juntos desvendaram os mistérios da vida. Ao livrarem-se do maldito local, passaram a dividir um pequeno quarto numa comunidade ao lado do fétido córrego que conduzia os dejetos daquele complexo de barracos próximo ao centro da cidade. Comunidade estrategicamente construída, pois permitia o acesso a avenidas de tráfego rápido, perfeitas rotas de fuga.
Ambiente envolvido por sons estranhos, choros de crianças, lamentos, conversas de revolta, panela-de-pressão, gargalhadas... Odores múltiplos, feijão queimado e feijão temperado, sabonete, água de sabão. Armas sob travesseiros encardidos apontavam para o medo que sentiam de que fossem encurralados no barraco pela polícia ou por comparsas, já que não pagavam propina a ninguém.
Na grande amizade estabelecida pelas coincidências nefastas, fizeram um pacto. Permaneceriam juntos e fiéis, nos sonhos e no pó, resistiriam ali até a morte. Passaram a chamar o quartinho mesquinho de solar, ali, bem provável, fosse seus túmulos. O local onde suas almas seriam libertadas dos corpos escárnios, rumo à prometida absolvição.
Embalados ao som de rock, deitados em colchões imundos, observavam os elos de fumaça que se formavam a cada baforada. Confidenciavam-se sobre a compunção por terem entrado nesse caminho que consideravam de mão única. Não havia saída, não tinham como voltar atrás. Relembravam as palavras da D. Vicentina, cozinheira do abrigo, que, na sua sensatez, havia tentado alertá-los do que as ruas podiam trazer.
Reconstituíram passagens do crime, da violação, do desrespeito.
Estavam inertes a qualquer sentimento, não guardavam mais nada dentro de si, a não ser, indiferença pela vida dos outros e pelas próprias. Matavam gente por osmose, pelos motivos mais banais, apenas para livrarem-se delas. Roubar e matar tornaram-se vícios. Cidadãos de retorno ao lar eram atocaiados, emboscados e, após tomar-lhes os pertences, divertiam-se vendo o terror espantado em seus rostos e, mais um corpo caia ao chão. Não foram poucas as vezes que, antes de matá-las, suas vítimas eram abusadas sexualmente, homens ou mulheres, com o intimo objetivo de vexá-las, aterrorizá-las e, o dinheiro assim arrecadado lhes abastecia o vício do cheiro do pó maldito.
Nessa noite de garoa intermitente, ambos estavam inquietos, relembravam os fatos, talvez com um misto de preocupação ou arrependimento. Davam gargalhadas ao narrar um caso bizarro e, imediatamente calavam-se por minutos a fio, até que um, novamente, parecendo criar coragem, passava a reviver uma outra situação. Sem nada a perder, na convicção do não há retorno, passaram a planejar um novo assalto. Dessa vez seria maior, algo mais arrojado que renderia férias à beira do mar, com direito à boa comida e mulheres bonitas.
Eram 20 horas e sabiam que às 22:30 um carro blindado recolhia a féria do dia do hipermercado, há muito tempo já observavam a rotina e os arredores, preparando-se para o divertido risco. Deveriam entrar e render os funcionários que preparavam os malotes de dinheiro. Desenharam o mapa do local e a estratégia de fuga, a pé, cada um com um malote na mão, sem muito risco. Tudo muito bem planejado e, novamente se sairiam bem. Caso qualquer um dos funcionários bancasse o besta, levaria chumbo. Os malotes seriam jogados no terreno baldio e eles voltariam para a avenida e caminhariam tranquilamente para casa, não levantando qualquer suspeita. Assim que tudo se acalmasse, voltariam ao local para pegar o dinheiro.
Enquanto planejavam, levantavam-se diversas vezes, ansiosos, perturbados, atentos a estranhos ruídos do lado de fora do barraco. Acalmavam-se, voltavam ao plano e, novamente, um deles levantava atônito, andava pelo quarto, acendia mais uma bituca, jogando a baforada no já viciado ar. De repente o primeiro tiro vara as duas paredes do barraco. Armas em punho, passam a atirar a esmo devolvendo balas para o lado de fora do barraco. Gritaria! Novamente silencio e passaram a, deitados, rastejarem-se pelo chão buscando proteção. Mal se ouvia a respiração um do outro, mas era possível identificar o batimento de seus corações. Uma saraivada de balas batucou no zinco do barraco. O silêncio perpetuou o momento e num breve instante um raio entrecortou o céu, clareando por milésimo de segundo o ambiente e, ele viu, de relance, o sangue correndo pela testa do amigo caído no chão.
Saltou para o corpo, tentando ouvir o batimento já conhecido e com voz baixa repetia e repetia e repetia o nome dele, suplicando para que não o deixasse só e, como para atender esse pedido, sentiu o chumbo quente penetrando em diversas partes do corpo, ardendo na carne. Tombou sem vida sobre o corpo do amigo, os olhos arregalados recebiam a água da chuva que penetrava pelos vãos do zinco esburacado pelas balas.
E assim, aquele local que servira de abrigo, tornara-se seus túmulos e, dos corpos abraçados, libertaram-se duas almas abraçadas, acorrentadas, negras, sórdidas, blasfêmicas, buscando juntarem-se a legião maligna que já se apoderara do ambiente e aguardavam... para levá-las.
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