Energia sexual. Poderoso instrumento para nos colocar em harmonia com o mundo.
 
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O homem de negro

por Surya

Espreguiçou-se, lânguida. O sol já brilhava há muito, mas apenas um raio curioso espiava a penumbra do quarto pela janela entreaberta.

Era fácil adivinhar a esplêndida natureza derramando-se pós janelas, mas ela não estava interessada. Intrigava-a mais o interior do amplo quarto, a cama em desalinho em que estava deitada, nua, saciada.

A fina lingerie que propositalmente vestira na noite anterior permanecia caída no tapete macio, testemunha dos momentos de prazer da madrugada. Intuíra na véspera a visita noturna. De alguma forma sabia que ele viria mais uma vez, como sempre deslizando pela grande janela que dava para o florido corredor externo.

Não cabia em si de alegria. Afinal, fizera a escolha certa ao mudar-se para a fazenda antes do casamento. Se já estava apaixonada pelo noivo, agora nem saberia descrever tanta felicidade. Sua cama na cidade já conhecia o calor dos dois corpos entregando-se. Mas somente na fazenda o jovem casal havia realmente alcançado o êxtase.

Enquanto se levantava lentamente, atirando a coberta para o lado e revelando o encanto do corpo claro, de curvas perfeitas, pensava no noivo, em como fora criativo ao encontrar a solução das visitas noturnas. Criatividade - ela sabia agora - era o que não lhe faltava. A cada visita, uma surpresa, um jogo erótico, um novo personagem, um objeto, um acessório...

Prendeu o farto cabelo castanho no alto da cabeça quando entrou na banheira. Sentou-se e deixou a água morna cobrir seu corpo. Olhou os seios firmes, teimando em não submergir, os bicos enrijecidos pelo agradável contato com a água. Ou seria pela lembrança das sensações noturnas? Desejou muito que o noivo estivesse ali. Sorriu pelo absurdo da idéia.

Quando decidiram mudar-se para a fazenda, já sabiam que não poderiam nem entrar no quarto um do outro. Os rígidos costumes do campo não permitiam. Combinaram manter-se afastados, restritos a respeitosos abraços. Depois do casamento haveria tempo... Mas ele não conseguira esperar, e isso causava nela um delicioso sentimento de poder. Sentia-se desejada, mais amada desde aquela noite quente, em que deixara aberta a grande janela do quarto. Foi por ali que ele entrou, assustando-a a princípio, com sua roupa negra. A máscara, também negra, que lhe cobria quase todo o rosto, revelava apenas os olhos castanhos tão queridos do futuro marido. Olhos que faiscavam de desejo. Antes que ela tivesse tempo de gritar, ele tampou sua boca com firmeza e fez sinal para que não se assustasse.

Depois, com pressa e determinação, despiu-a e iniciou uma deliciosa sessão de erotismo e prazer, tocando cada centímetro de sua pele. Quando os dois corpos finalmente se encontraram, ela sentia-se em êxtase. Jamais poderia supor que ele se revelasse, no novo ambiente, um amante tão perfeito.

Não trocaram uma só palavra naquela noite e nas seguintes. Se fizessem ruídos, poderiam chamar a atenção das pessoas na casa. Ele chegava e ia embora sempre da mesma forma, pela grande janela. E esse clima furtivo só aumentava seu prazer. De dia, na frente dos futuros sogros, comportavam-se como um casal de noivos atentos aos limites. Mesmo quando estavam a sós, nada falavam sobre as visitas noturnas.

Os pensamentos dela eram um turbilhão enquanto o corpo relaxava na água morna. A noite anterior havia sido particularmente ousada e deliciosa. Em um pequeno frasco ele trouxera óleo perfumado. Vedara seus olhos com um lenço de seda, deixando depois o perfume escorrer por seu corpo nu, "obrigando-a" a vibrar sob as carícias de um homem experiente.

Enquanto revivia os momentos de prazer, uma idéia começou a incomodá-la. E depois do casamento? Eles abdicariam do prazer do fruto proibido? Cairiam na rotina do sexo? Ela já não saberia mais viver sem os quentes encontros da madrugada. Sentia que também ele encontrava mais prazer no sexo, era um novo homem.

No mesmo dia disse à futura sogra que gostaria de continuar em seu quarto após o casamento. Modificações necessárias foram feitas, para acomodar o novo casal no quarto com a ampla janela dando para o corredor externo. Após o casamento, viajaram em lua-de-mel para a Europa. Ela estava encantada, mas - era obrigada a reconhecer - o sexo nem se aproximava das noites quentes na fazenda. Ele era carinhoso, demonstrava seu amor, levava-a para a cama com freqüência. Ela estava feliz, mas não radiante. Quando retornaram à fazenda, logo se adaptaram à vida de casados. Ele cuidava dos negócios e ela ajudava na administração da casa e dos empregados.

Mas faltava o atrevido personagem de negro. Em sonhos ele a visitava, dizendo frases ousadas em seus ouvidos, tocando-a como antes. Então ela acordava e o homem que poderia transformar seu sonho em realidade estava ali, muito perto, mas parecia nada perceber.

Começou a sentir e demonstrar irritação. Queria deixar a janela aberta à noite, mas o marido fechava-a antes de ir para a cama. Decidiu romper o silêncio, falar com ele sobre as antigas visitas noturnas e a falta que elas lhe faziam. Tinha certeza de que ele também estava saudoso daquelas noites quentes.

Quando começou a falar, viu as feições do marido enrijecerem-se. Ele nada dizia, mas ela decidiu ir até o fim. Disse tudo de um só fôlego. Para sua surpresa, ele apenas a olhou e saiu do quarto. Trancou-se na biblioteca, mas mais tarde correu a notícia de que ele planejava uma viagem à cidade.

Ela estava perplexa. Percebia que aquela viagem estava relacionada com o que lhe havia dito, mas não atinava com o motivo. Ele partiu sem se despedir. À noite, só e sentindo o calor dos amantes abandonados, deixou a janela entreaberta. Para sua surpresa, ele chegou de madrugada. De negro, como sempre, entrando pela janela. E levando-a à loucura, no sôfrego reencontro de parceiros há muito separados.

Foi embora só ao alvorecer, mas retornou na noite seguinte e na outra. Cada vez melhor, mais exigente e mais ousado. Ela era de novo feliz. Agora sabia que ambos precisavam do personagem de negro. E intuía que muitas outras viagens à cidade se sucederiam àquela.

Na estrada de volta à fazenda, o marido tinha o coração apertado. Desde a revelação que ela lhe fizera só conseguia pensar em vingança. Precisava saber quem era o homem que, fazendo-se passar por ele, invadira o quarto de sua noiva para lhe proporcionar o prazer que ele nunca tinha conseguido fazê-la alcançar.

Como lhe contar a verdade? Como lhe dizer que não era ele o tão desejado personagem de negro? Dividia-se entre o desejo de vingança e o temor. Sabia que ia perdê-la, tinha medo da vergonha e decepção que fatalmente surgiriam em seus olhos.

Agora já não via a hora de chegar na fazenda. O que teria acontecido naquelas noites de sua ausência? Teria o outro ousado voltar a visitá-la? Mas a idéia que já o perseguia desde que soubera da verdade tornou a incomodá-lo. Ele a amava muito, não queria perdê-la. Se o personagem de negro tivesse voltado...

Buscou em desespero o pensamento de vingança. Ia matar o rival.

O carro parou em frente à porta principal. Ele desceu determinado. Avistou-a logo, linda, suave. Olhou seu rosto e viu o sorriso, a expressão de amante realizada. Não conseguiu impedir seu próprio sorriso. Abraçou-a e encaminharam-se, juntos, para o quarto da grande janela que dava para o corredor florido... e assim se fez...

23 de março de 2006


 

 

 

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