Espreguiçou-se,
lânguida. O sol já brilhava há muito,
mas apenas um raio curioso espiava a penumbra do quarto
pela janela entreaberta.
Era fácil adivinhar a esplêndida natureza derramando-se
pós janelas, mas ela não estava interessada.
Intrigava-a mais o interior do amplo quarto, a cama em desalinho
em que estava deitada, nua, saciada.
A
fina lingerie que propositalmente vestira na noite anterior
permanecia caída no tapete macio, testemunha dos
momentos de prazer da madrugada. Intuíra na véspera
a visita noturna. De alguma forma sabia que ele viria mais
uma vez, como sempre deslizando pela grande janela que dava
para o florido corredor externo.
Não
cabia em si de alegria. Afinal, fizera a escolha certa ao
mudar-se para a fazenda antes do casamento. Se já
estava apaixonada pelo noivo, agora nem saberia descrever
tanta felicidade. Sua cama na cidade já conhecia
o calor dos dois corpos entregando-se. Mas somente na fazenda
o jovem casal havia realmente alcançado o êxtase.
Enquanto
se levantava lentamente, atirando a coberta para o lado
e revelando o encanto do corpo claro, de curvas perfeitas,
pensava no noivo, em como fora criativo ao encontrar a solução
das visitas noturnas. Criatividade - ela sabia agora - era
o que não lhe faltava. A cada visita, uma surpresa,
um jogo erótico, um novo personagem, um objeto, um
acessório...
Prendeu
o farto cabelo castanho no alto da cabeça quando
entrou na banheira. Sentou-se e deixou a água morna
cobrir seu corpo. Olhou os seios firmes, teimando em não
submergir, os bicos enrijecidos pelo agradável contato
com a água. Ou seria pela lembrança das sensações
noturnas? Desejou muito que o noivo estivesse ali. Sorriu
pelo absurdo da idéia.
Quando
decidiram mudar-se para a fazenda, já sabiam que
não poderiam nem entrar no quarto um do outro. Os
rígidos costumes do campo não permitiam. Combinaram
manter-se afastados, restritos a respeitosos abraços.
Depois do casamento haveria tempo... Mas ele não
conseguira esperar, e isso causava nela um delicioso sentimento
de poder. Sentia-se desejada, mais amada desde aquela noite
quente, em que deixara aberta a grande janela do quarto. Foi
por ali que ele entrou, assustando-a a princípio,
com sua roupa negra. A máscara, também negra,
que lhe cobria quase todo o rosto, revelava apenas os olhos
castanhos tão queridos do futuro marido. Olhos que
faiscavam de desejo. Antes que ela tivesse tempo de gritar,
ele tampou sua boca com firmeza e fez sinal para que não
se assustasse.
Depois,
com pressa e determinação, despiu-a e iniciou
uma deliciosa sessão de erotismo e prazer, tocando
cada centímetro de sua pele. Quando os dois corpos
finalmente se encontraram, ela sentia-se em êxtase.
Jamais poderia supor que ele se revelasse, no novo ambiente,
um amante tão perfeito.
Não
trocaram uma só palavra naquela noite e nas seguintes.
Se fizessem ruídos, poderiam chamar a atenção
das pessoas na casa. Ele chegava e ia embora sempre da mesma
forma, pela grande janela. E esse clima furtivo só
aumentava seu prazer. De dia, na frente dos futuros sogros,
comportavam-se como um casal de noivos atentos aos limites.
Mesmo quando estavam a sós, nada falavam sobre as
visitas noturnas.
Os
pensamentos dela eram um turbilhão enquanto o corpo
relaxava na água morna. A noite anterior havia sido
particularmente ousada e deliciosa. Em um pequeno frasco
ele trouxera óleo perfumado. Vedara seus olhos com
um lenço de seda, deixando depois o perfume escorrer
por seu corpo nu, "obrigando-a" a vibrar sob as
carícias de um homem experiente.
Enquanto
revivia os momentos de prazer, uma idéia começou
a incomodá-la. E depois do casamento? Eles abdicariam
do prazer do fruto proibido? Cairiam na rotina do sexo?
Ela já não saberia mais viver sem os quentes
encontros da madrugada. Sentia que também ele encontrava
mais prazer no sexo, era um novo homem.
No
mesmo dia disse à futura sogra que gostaria de continuar
em seu quarto após o casamento. Modificações
necessárias foram feitas, para acomodar o novo casal
no quarto com a ampla janela dando para o corredor externo.
Após o casamento, viajaram em lua-de-mel para a Europa.
Ela estava encantada, mas - era obrigada a reconhecer -
o sexo nem se aproximava das noites quentes na fazenda. Ele
era carinhoso, demonstrava seu amor, levava-a para a cama
com freqüência. Ela estava feliz, mas não
radiante. Quando retornaram à fazenda, logo se adaptaram
à vida de casados. Ele cuidava dos negócios
e ela ajudava na administração da casa e dos
empregados.
Mas
faltava o atrevido personagem de negro. Em sonhos ele a
visitava, dizendo frases ousadas em seus ouvidos, tocando-a
como antes. Então ela acordava e o homem que poderia
transformar seu sonho em realidade estava ali, muito perto,
mas parecia nada perceber.
Começou
a sentir e demonstrar irritação. Queria deixar
a janela aberta à noite, mas o marido fechava-a antes
de ir para a cama. Decidiu romper o silêncio, falar
com ele sobre as antigas visitas noturnas e a falta que
elas lhe faziam. Tinha certeza de que ele também
estava saudoso daquelas noites quentes.
Quando
começou a falar, viu as feições do
marido enrijecerem-se. Ele nada dizia, mas ela decidiu ir
até o fim. Disse tudo de um só fôlego.
Para sua surpresa, ele apenas a olhou e saiu do quarto.
Trancou-se na biblioteca, mas mais tarde correu a notícia
de que ele planejava uma viagem à cidade.
Ela
estava perplexa. Percebia que aquela viagem estava relacionada
com o que lhe havia dito, mas não atinava com o motivo.
Ele partiu sem se despedir. À noite, só e
sentindo o calor dos amantes abandonados, deixou a janela
entreaberta. Para sua surpresa, ele chegou de madrugada.
De negro, como sempre, entrando pela janela. E levando-a
à loucura, no sôfrego reencontro de parceiros
há muito separados.
Foi
embora só ao alvorecer, mas retornou na noite seguinte
e na outra. Cada vez melhor, mais exigente e mais ousado.
Ela era de novo feliz. Agora sabia que ambos precisavam
do personagem de negro. E intuía que muitas outras
viagens à cidade se sucederiam àquela.
Na
estrada de volta à fazenda, o marido tinha o coração
apertado. Desde a revelação que ela lhe fizera
só conseguia pensar em vingança. Precisava
saber quem era o homem que, fazendo-se passar por ele, invadira
o quarto de sua noiva para lhe proporcionar o prazer que
ele nunca tinha conseguido fazê-la alcançar.
Como
lhe contar a verdade? Como lhe dizer que não era
ele o tão desejado personagem de negro? Dividia-se
entre o desejo de vingança e o temor. Sabia que ia
perdê-la, tinha medo da vergonha e decepção
que fatalmente surgiriam em seus olhos.
Agora
já não via a hora de chegar na fazenda. O
que teria acontecido naquelas noites de sua ausência?
Teria o outro ousado voltar a visitá-la? Mas a idéia
que já o perseguia desde que soubera da verdade tornou
a incomodá-lo. Ele a amava muito, não queria
perdê-la. Se o personagem de negro tivesse voltado...
Buscou
em desespero o pensamento de vingança. Ia matar o
rival.
O
carro parou em frente à porta principal. Ele desceu
determinado. Avistou-a logo, linda, suave. Olhou seu rosto
e viu o sorriso, a expressão de amante realizada.
Não conseguiu impedir seu próprio sorriso.
Abraçou-a e encaminharam-se, juntos, para o quarto
da grande janela que dava para o corredor florido... e assim
se fez...
23
de março de 2006